quarta-feira, 18 de julho de 2012

The Fear


Quando deu por si, estava acordando na poltrona da sala.
Sob o efeito do álcool e do comprimido que tomara, continuava meio alheia ao que havia acontecido.
O cenário era um verdadeiro caos.
Dezenas de cigarros com a marca de seu batom ocupavam o cinzeiro no braço do sofá, fora os que jaziam espalhados sobre a poltrona por não caberem mais.
A mesa no centro da sala estava tombada sobre o tapete amassado.
Em sua mão, a garrafa de whisky praticamente vazia.
No chão uma igual quebrada, também vazia.
De repente, uma lágrima rolou de seu rosto.
A televisão no mudo, sintonizada em um canal de previsão do tempo.
Aos poucos começava a se lembrar.
Não claramente, mas em nuances.
Lembrou-se de gritos e lágrimas.
Olhou para a garrafa no chão e se lembrou do som dela quebrando.
Levantou-se devagar com cuidado para não pisar nos cacos.
Sua cabeça pesava muito, acabara de perceber.
Teve de andar cambaleando.
Esbarrou no cinzeiro, que caiu espalhando todo aquele lixo sobre o tapete, mas ela não se importou em catar.
Aos poucos se lembrava um pouco mais.
Viu mais lágrimas, muitos gritos e uma mão atirando a garrafa ao chão.
Começou a entrar em desespero.
Tentou correr, mas teve que se segurar nos móveis para não cair.
Derrubou um objeto da estante, que nem se preocupou em checar o que era.
Tentou cambalear um pouco mais rápido.
Seus olhos já estavam cheios d'água.
Ao chegar no corredor, viu algumas roupas espalhadas e a porta do quarto estava escancarada.
Chorava compulsivamente quando finalmente conseguira entrar no quarto e notar que o motivo de todas aquelas lágrimas temerosas era verdade.

"Ele foi embora."

Foi ainda pior no momento em que o pensamento começou a ecoar em sua cabeça.
Surtou.
Sem pensar duas vezes, cambaleou de volta para a sala e depois para a varanda.
A lua estava cheia e as estrelas brilhavam como nunca.
Respirou fundo, virou de costas para a grade, fechou os olhos e se inclinou para trás.

A queda se transformou em um suspiro fundo e um susto.
Quando deu por si novamente, estava sentada em sua cama.
Era dia claro, pois o sol atravessava a cortina.
Estava aterrorizada, ofegante e sem entender nada.
Até que olhou para o lado e começou a perceber o que se passava, tranquilizando-se.

"Ele não foi embora."

E ficou observando-o dormir até acreditar completamente que tudo não passara de um pesadelo.